Aplicando a Medicina do Rapé

 

Geralmente, o rapé é usado em duplas e deve ser administrado por pessoas que tenham experiência no uso, pois a maneira como é induzido, a quantidade e até o estado de espírito da pessoa no momento da aplicação, podem fazer toda a diferença.

Há uma crença de que o rapé carrega a intenção e energia transmitidas por quem está recebendo a medicina e por quem está soprando o pó. A pessoa que aplica deve estar ciente do que faz, pois, o modo como pega o pó na mão e o Tipi, a forma que assopra e o que pensa enquanto o faz, influenciam de maneira positiva ou negativa no trabalho. O mesmo rapé, se aplicado por duas pessoas diferentes, certamente não terá o mesmo efeito. 

Apesar de não ser difícil aspirar o pó, ele costuma ser soprado através de um instrumento que é semelhante a um bambu oco, chamado de Tipi. Em todo uso do rapé, o plano espiritual se aproxima da pessoa que inalou, abrindo as portas da percepção da mente e o deixando mais suscetível a intervenções não terrenas. Trata-se de um convite para o mundo espiritual e sábio, que vai além dos humanos. É utilizado para encontrar respostas não passíveis de se ver em estado inalterado de consciência.

A aplicação também pode ser feita pelo próprio usuário com um auto aplicador, um Tipi bem curto, denominado Kuripe. Ele é pequeno e cabe no espaço entre a boca e o nariz, sendo pessoal, como uma escova de dentes.

 

O que fazer quando eu for receber a medicina do Rapé?

Como pode-se perceber, a aplicação se dá por via nasal, através de um sopro próprio ou recebido através de outra pessoa nas duas cavidades nasais (uma de cada vez), onde não é recomendado aspirar o ar ou o rapé no momento da aplicação, e sim “trancar” a respiração com o intuito que o rapé não desça para a garganta nem seja engolido (se isto acontecer, depois a pessoa pode cuspi-lo), e sim percorra as vias nasais, subindo, e às vezes sendo sentido atrás da cabeça, ou como descrito por Tastevin, seja sentido como “um choque no cérebro”. 

Quando se iniciam as aplicações de rapé, é importante ter um balde ou algum outro recipiente para a realização de limpezas por via de vômito, pois é muito comum que seja desencadeado vômitos por ocasião da aplicação. 

O estômago e o intestino ficam completamente descontrolados, o que causa vômitos frequentes, diarreias e fortes dores abdominais. Principal substância psicoativa do tabaco. 

É importante alertar que o rapé nunca deve ser usado sem a supervisão de pessoas que entendam seu poder e a forma como ele deve ser administrado. Os índios possuem a sabedoria necessária para o consumo e o uso pelos homens da vida urbana muitas vezes pode ser arriscado.

 

Tipos de Sopro do Rapé

Os sopros são muito variados e dependem muito da ocasião e do propósito; alguns Huni Kuin dão nomes de animais para os sopros, como por exemplo, sopro do Txaxu (veado), Pinu (beija-flor), cada um com intensidades, força (forte, suave), duração (curto, longo) diferenciados.

 

Por que aplicar a Medicina do Rapé no nariz?

A mucosa nasal apresenta uma propriedade particularmente receptiva para trocas químicas com substâncias fitoterápicas e psicotrópicas. É extremamente vascularizada, possui íntima conexão com as partes filogeneticamente mais antigas do cérebro. A via nasal apresenta-se, portanto, como uma via muito privilegiada para a aplicação de psicotrópicos, merecendo ser utilizado com todo cuidado e cautela. A via nasal traz algumas vantagens em relação à via inalatória- ou seja, fumar a planta, se tomarmos, como exemplo típico, a utilização do tabaco por meio do rapé. É bem sabido que o principal constituinte psicotrópico do tabaco é a nicotina, que tem sido tão amplamente utilizada por via inalatória, com o consumo, disseminado por todo o planeta, do cigarro, que gera muitos problemas de saúde”.

 

 

Fonte: 

Rapé e xamanismo entre grupos indígenas no médio Purus, Amazônia por Gilton Mendes dos Santos e Guilherme Henriques Soares

MERGULHO NO SER: corpo e memória em cerimônias indígenas com Huni por Camila Silva Ribeiro

 

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